
Ituverava é uma pequena cidade de cerca de 40 mil habitantes no nordeste do estado de São Paulo, mas o hospital serve como centro de referência de neurologia para uma região circundante de cerca de 120 mil habitantes. Por muito tempo, havia vontade de estabelecer um protocolo de trombólise para AVC isquémico agudo, mas o principal desafio era a ausência de um neurologista fisicamente presente no SU a tempo inteiro. Embora tenhamos um serviço de neurologia, não é uma presença contínua no local. Telestroke foi a solução que nos permitiu superar essa barreira.
A implementação do teleAVC foi possível através do Programa Angels, que nos ligou com a equipa do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, liderado pelo Dr. Octávio Pontes. Este contacto não só permitiu o início do projeto, como também marcou o início de uma parceria de longa data. A sua equipa tornou-se colaboradores próximos, grandes amigos e importantes modelos dentro da comunidade Angels, e continuam a trabalhar connosco hoje em dia.
Além de tornar a trombólise viável, o teleacidente teve um impacto transformador em todo o nosso serviço de AVC. Esta estabeleceu as bases para desenvolver a nossa unidade de AVC, juntar-se a iniciativas de investigação e até mesmo tornar-se membro do projeto Resilient, que desenvolve novas tecnologias e avanços científicos no tratamento do AVC. De muitas formas, todo este progresso começou com o teleAVC.
É uma espécie de arte
Minha família é de Ituverava, e passei 12 anos da minha vida aqui antes de sair para a faculdade de medicina no Rio de Janeiro. Venho de uma família grande e próxima e um primo, que é como um irmão mais velho para mim, foi o meu modelo. Ele é radiologista e inspirou-me a procurar medicina. Tomei a decisão quando tinha 16 anos.
A neurologia sempre me pareceu natural porque reflete a minha personalidade e interesses. Tenho um profundo apreço pela arte, literatura, filosofia e complexidade da existência humana. Para mim, o cérebro é a essência de quem somos — tanto a nossa ciência como a nossa humanidade. A neurologia une essas duas dimensões: a precisão da fisiologia e o mistério da mente.
Na minha cidade natal, enfrentei a realidade de que o AVC era um dos maiores desafios na nossa comunidade. Essa experiência dirigiu-me para o meu caminho e, ao longo do tempo, fiquei profundamente envolvido nos cuidados do AVC. Quanto mais estudava e trabalhava com estes doentes, mais me apercebi de quão poderoso poderia ser o nosso impacto nas suas vidas. Nesse sentido, a neurologia não é apenas uma ciência para mim, mas também uma espécie de arte.
Após a formatura, foi uma escolha natural regressar a casa, ficar perto da minha família e contribuir para a comunidade. Naquela altura, não havia serviço de AVC organizado – os doentes apenas receberam terapêutica antiplaquetária e a trombólise não estava disponível. Juntamente com a nossa enfermeira chefe, Andreza Maeda, e com o apoio de muitos colegas e do Programa Angels, começámos a mudar isso.
Mesmo um pequeno hospital pode alcançar a excelência
Nunca me esquecerei do primeiro doente que tratei com trombólise. Foi um caso desafiante e tivemos de explicar tudo cuidadosamente à família. Confiaram em nós, e prosseguimos. O paciente apresentou melhora neurológica em minutos, e poucos dias depois teve alta sem incapacidade. Foi um momento extraordinário – não só para mim, mas para todo o hospital. Provou a todos que este tratamento realmente funciona. Continuamos em contacto com este doente, que celebrou recentemente o seu 80.o aniversário. Inclusive, convidou-nos para uma grande celebração familiar, onde era forte, saudável e cheio de vida. Vê-lo assim, sabendo o que alcançámos juntos, continua a ser uma das experiências mais significativas da minha carreira.
Hoje a Santa Casa de Ituverava é reconhecida como referência nos cuidados do AVC, com um desempenho sólido e participação na investigação. O progresso tem sido significativo e foi o resultado do trabalho em equipa em todo o hospital.
Mudar a cultura é sempre um desafio, especialmente num pequeno hospital com uma equipa de urgência rotativa. No início, lutamos para manter resultados consistentes, particularmente durante turnos noturnos e de fim de semana, quando médicos menos experientes estavam de serviço. Um fator chave para o sucesso foi a equipa de enfermagem, cuja experiência lhes permitiu apoiar médicos de plantão, seguir protocolos e manter o processo consistente, mesmo em turnos difíceis.
O Programa Angels também ajudou a definir objetivos claros e envolver o pessoal. Assim que começámos a alcançar padrões elevados e a receber prémios, enviou uma mensagem forte: até um pequeno hospital pode alcançar a excelência. Esse reconhecimento motivou a equipa e ajudou-nos a construir uma cultura sustentável de cuidados de qualidade.

Aponte para cima e continue a melhorar
O sucesso de Ribeirão Preto nos inspirou definitivamente. Somos muito próximos geograficamente e a sua equipa sempre foi um ponto de referência. Aprendemos muito com a sua experiência e tentámos simular as suas melhores práticas. O seu exemplo mostrou-nos que era possível um hospital na nossa região ter um objetivo elevado e continuar a melhorar.
Nunca estamos totalmente satisfeitos com os nossos resultados, e esse é um dos nossos maiores pontos fortes. A cada treinamento, a cada turno, enfatizamos a importância da melhoria constante. Digo frequentemente à equipa que, embora celebremos os resultados, o trabalho pode ser sempre mais rápido e melhor – porque se fosse o nosso próprio membro da família, gostaríamos de ter os melhores cuidados possíveis. Esta mentalidade tem-nos mantido motivados e esforçando-nos continuamente por alcançar a excelência. Os resultados falam por si: em fevereiro de 2025, atingimos um tempo porta-a-agulha de 12 minutos, o nosso melhor até agora.
O nosso sucesso vem principalmente do envolvimento da liderança e do forte apoio do conselho hospitalar, que reconhece a importância do projeto e fornece os recursos para continuar a melhorar. A formação contínua de médicos e enfermeiros tem sido essencial, bem como atividades regulares de integração para novos colaboradores. Além disso, os investimentos em tecnologia — como o software de RM atualizado, um novo exame de TC e sistemas de imagem melhorados — têm sido revolucionários, tornando o diagnóstico mais rápido e mais eficiente.
Outro fator-chave tem sido a nossa cultura de responsabilidade e melhoria contínua. Todos os casos são analisados e sempre que identificamos atrasos ou erros, analisamos o que poderia ter sido feito melhor.
Uma mudança silenciosa
A nossa região inclui muitas cidades mais pequenas, a maioria das quais não tem protocolos de neurologia ou AVC. Santa Casa de Ituverava tornou-se o centro de referência. Depois de melhorarmos os nossos resultados internos, apercebemo-nos de que alguns doentes ainda estavam a chegar demasiado tarde para trombólise porque foram levados pela primeira vez para hospitais locais. Para tratar disso, construímos uma forte parceria com a SAMU Regional Três Colinas. Agora, quando os socorristas identificam um AVC, contornam os hospitais locais e trazem o doente diretamente para nós, enquanto pré-notificam a nossa equipa. Isto significa que o tratamento começa efetivamente com a ambulância, não apenas à chegada. Trata-se de uma mudança silenciosa, mas que salvou muitas vidas e reduziu a incapacidade de inúmeras famílias.
A nossa parceria com a SAMU é muito natural porque partilhamos o mesmo objetivo: salvar vidas e proporcionar excelência nos cuidados de AVC. Partilhamos experiências, resultados, desafios e realizações, o que nos mantém ligados e a trabalhar como uma equipa.
Nosso hospital atende principalmente pacientes do sistema público de saúde (SUS). Mais de 80% de nossos casos são pacientes do SUS, que recebem atendimentos completamente gratuitos. Os doentes com seguro privado representam uma pequena percentagem do nosso volume e os cuidados são exatamente os mesmos — os mesmos médicos, as mesmas instalações, a mesma qualidade.
O reconhecimento da Região Angels tem sido essencial neste contexto: dá credibilidade aos nossos resultados e fornece um forte argumento ao solicitar investimentos às autoridades estaduais e federais. O nosso conselho hospitalar apresenta estas realizações como prova de que mesmo um pequeno hospital pode fazer uma diferença real. Afinal de contas, os cuidados de saúde não têm a ver com tratar bem um doente, mas sim com garantir a mesma qualidade para cada doente.
O meu conselho para outras regiões é lembrar que as pessoas são o recurso chave. Pode ter dinheiro, tecnologia e protocolos, mas sem profissionais dedicados que se preocupam profundamente com os seus doentes, nenhum deles funciona. A excelência vem da construção de equipas locais fortes, mesmo em cidades pequenas, e da formação, estrutura e apoio de que precisam. Com pessoas comprometidas, tudo o resto – diretrizes, tecnologia, parcerias – pode ser desenvolvido. Esta mentalidade é o que realmente faz a diferença.

TELESTROKE EM ITUVERAVA | COMO FUNCIONA
Ituverava é uma pequena cidade localizada no interior do estado de São Paulo.O serviço de teleAVC é prestado por médicos a 102 km de distância em Ribeirão Preto, a primeira Cidade Angels do mundo e berço da estratégia das Regiões Angels. A consultora Angels Karla Leal Trevisan explica:
“O Projeto TeleAVC fornece apoio a doentes com suspeita de AVC na fase aguda. Este apoio é fornecido por telemedicina por neurologistas especialistas que estão disponíveis 24 horas por dia, sete dias por semana. A ferramenta utilizada é a aplicação Join, que permite o acesso às informações clínicas do paciente, imagens de tomografia padrão DICOM e comunicação através de áudio, texto e videochamadas.
“A parceria e a inovação tecnológica por detrás do teleAVC permitiram a criação da unidade de AVC na Santa Casa de Misericórdia de Ituverava, garantindo o acesso local a tratamentos altamente complexos.
“A Santa Casa agora tem avaliações remotas imediatas por neurologistas do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto (HCFMRP), permitindo um diagnóstico rápido e trombólise oportuna. Esta colaboração transformou a instituição numa referência nacional, pioneira na utilização de telemedicina para o tratamento do AVC.
“O HCFMRP atua como apoio e apoio especializado, enquanto a Santa Casa desempenha um papel estratégico como porta de entrada para os cuidados agudos na região.”

ENFERMEIRA-CHEFE Andreza G. S. N. Maeda | Um sonho coletivo
“O conceito das Regiões Anjos, que teve origem na primeira Cidade Anjo do mundo com Ribeirão Preto, foi e continua a ser uma grande inspiração,” afirma a enfermeira chefeAndreza G. S. N. Maeda.”Este reconhecimento demonstrou que é possível transformar a realidade dos cuidados de AVC através da organização da rede, protocolos bem definidos, utilização de tecnologia e integração entre diferentes níveis de cuidados.
“Para nós em Ituverava, este modelo foi fundamental: inspirou a criação da nossa própria unidade de AVC, melhorada pela utilização de teleAVC em parceria com o Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto. Hoje, podemos afirmar que estamos a seguir o mesmo caminho, demonstrando que as cidades de média dimensão também podem alcançar a excelência nos cuidados de AVC.
“Quando ouvi falar pela primeira vez do conceito da Cidade Angels, percebi imediatamente o quanto este reconhecimento simboliza o compromisso, a inovação e os cuidados humanizados nos cuidados dos doentes de AVC.Desde então, definimos o objetivo de nos tornarmos também uma Cidade Angels.Conseguir este título representa não só a concretização de um objetivo, mas a realização de um sonho coletivo: salvar vidas e reduzir sequelas através de cuidados estruturados, inovadores e acessíveis.

